Sobre as mentiras de uma guerra santa

Antonio J. Augusto, docente da Escola de Música da UFRJ, rebate em vigoroso artigo o maestro e diretor artístico da OSB que, em entrevista nas páginas amarelas da Revista Veja, afirmou que a demissão de 36 músicos daquela orquestra representava a “primeira batalha de uma guerra santa contra a mediocridade, o corporativismo e pela excelência artística”.

Sobre as mentiras de uma guerra santa: Uma resposta cromática às tristes páginas amareladas da Revista Veja

No último fim de semana, a verdade e a decência sofreram um duro ataque. A revista Veja e o maestro e diretor artístico da OSB anunciavam a vitória na “primeira batalha de uma guerra santa contra a mediocridade, o corporativismo e pela excelência artística”. Se demitir 36 músicos da OSB pode ser considerado uma vitória e apelar para um mote doutrinário como “guerra santa” pode ser indício de uma liderança sadia, construtiva e interessada no bem comum, está na hora de nossa sociedade refletir profundamente a respeito dos valores e ideais que defende. É impossível perceber vitória na destruição da vida profissional de 36 músicos que passaram as últimas décadas dedicados a manter viva exatamente esta instituição que os expele – para usar um termo empregado na entrevista – pela porta dos fundos, qualificando-os como medíocres, corporativistas e sem nenhuma excelência artística. É inaceitável que o primeiro “passo decisivo” seja aquele que esmaga a história e a respeitabilidade de uma orquestra criada há 70 anos e fruto de uma tradição e prática musical que remonta ao início do século XIX.

Este “passo decisivo” que se revela um desastre completo, só é possível de ser dado pelos que desconhecem as tradições que permeiam a nossa atividade presente. Este desconhecimento se manifesta nas perguntas elaboradas pela revista – “Qual pode ser o papel de uma orquestra num país como o Brasil, sem tradição na música clássica?” -, e nas respostas do incauto diretor: – “Há um abismo de séculos entre as orquestras europeias e americanas e as brasileiras”. Desconhece a história de seu país, desconhece as realizações e lutas de seus antepassados músicos que realizavam montagens de óperas de Verdi, apenas meses depois de sua estreia na Itália; desconhece as sementes lançadas por Leopoldo Miguez e Carlos de Mesquita, que ainda no século XIX regiam Wagner, Mozart e Mendelssohn, entre outros, em concertos sinfônicos.

Desconhece também o trabalho de seus músicos atuais. Pois ao apresentar como novidade um projeto que prevê apresentações de música de câmara e recitais individuais está indiretamente reconhecendo que desconhece o trabalho, por exemplo, do Quarteto da UFF, do Art Metal Quinteto, do Trio Aquarius, do Quarteto Raga e de tantos outros grupos formados por músicos da OSB e, que há anos, atuam no mercado nacional e internacional, com CDs lançados e inúmeros projetos realizados que deixaram profundas marcas na prática da música de câmara brasileira. Desconhece que muitos de seus músicos já conquistaram o “destaque internacional” que acena como recompensa ilusória.

Desconhece até mesmo o trabalho que realizou em parceria com a OSB. Em 2008, a Prefeitura do Rio de Janeiro, em comemoração aos 200 anos da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, lançou a série de CDs “A Música na Corte de D. João VI”. Um desses volumes, a “Missa Nossa Senhora da Conceição”, de 1810, e o “Credo em Si Bemol”, do Padre José Maurício Nunes Garcia, foi gravado com o Coro Sinfônico do Rio de Janeiro e a Orquestra Sinfônica Brasileira. Infelizmente, apesar das críticas favoráveis e do belo concerto realizado, descobrimos, agora, que a OSB não tem mais o nível para gravar um simples CD. O diretor artístico afirmou que, recentemente, teve de jogar fora a gravação de uma peça tocada mais de vinte vezes, simplesmente porque ela não apresentava o nível mínimo para que constasse em um CD. Como a orquestra pôde descer de nível tão rápido? Apenas dois anos antes realizou, com todas as pompas e aplausos, o lançamento do CD com obras de José Mauricio Garcia e, em tão curto espaço de tempo, não consegue gravar nem o que tocou por mais de vinte vezes? Só podemos deduzir que o trabalho realizado pela direção artística da orquestra a levou a esta embaraçosa situação.

O diretor artístico e maestro também desconhece ou prefere tentar relegar ao esquecimento aspectos marcantes da OSB atual. Afirma que para os músicos tudo gira em torno da ideia do total descompromisso. Gostaríamos apenas de fazer uma pergunta: se tudo gira em torno do descompromisso, o que fazia estes músicos, mesmo sem receber salários por meses, mesmo trabalhando em condições precárias, não faltar a um simples ensaio, jamais deixar de realizar um concerto, não faltar com nenhuma das suas obrigações contratuais enquanto a FOSB claramente faltava com as suas? O que motivava estes músicos, que viveram anos sob estas condições? A resposta é óbvia: Era exatamente o compromisso! O compromisso com a instituição, o compromisso com seus patrocinadores, com seu público e, principalmente, com a coisa mais valiosa que todos possuem: a música. Mas isto o maestro faz questão de repetidamente desconhecer, ou querer esquecer. Mas a história há de falar mais alto e esta verdade há de sobressair, de derrotar o projeto dos verdadeiros descompromissados.

Conhecendo este aspecto do compromisso dos músicos da OSB, é impossível não reagir à colocação do diretor e maestro ao afirmar que não dá para pensar em avanços relevantes sem que os músicos coloquem de uma vez por todas a OSB no topo de sua lista de prioridades. É mesmo? Quem durante anos acumulou funções que obrigavam a longos períodos de ausência? Comparem o número de concertos e ensaios da orquestra com os ensaios e concertos que efetivamente foram regidos pelo maestro titular e respondam: quem deveria ter colocado a OSB no topo de suas prioridades? Compare os ganhos financeiros dos músicos da orquestra com aqueles ganhos pela direção artística, administrativa e outros cargos obscuros e nos digam quem tem compromisso e coloca a FOSB como prioridade?

O diretor diz reconhecer, entre os músicos que permaneceram, mais entusiasmo. Talvez ele não tenha lido a carta escrita por quatro valorosos músicos que, mesmo tendo se submetido às avaliações, manifestam de maneira clara e inequívoca sua reprovação a estas e afirmam seu apoio aos músicos demitidos. Também não deve ter visto as lágrimas e o desconforto escrito nos rostos e nos corpos trêmulos que, somente a peso de calmantes e ansiolíticos, puderam enfrentar a humilhação das provas demissionais, verdadeiro termo que define as avaliações propostas.

Ainda revelando seu desconhecimento a respeito da orquestra, com a qual poderia ter construído algo digno, o diretor artístico e maestro anuncia a participação no Rock in Rio como uma “nova estratégia” de conquista de público. Esquece ou desconhece que a OSB participou da primeira versão deste evento (vale a pena observar as expressões de felicidade, prazer e envolvimento dos músicos preguiçosos e indolentes em vídeo disponível no youtube), bem como de eventos importantes para o grande público. Aliás, esta é uma marca da OSB há muitos anos, vide o projeto Aquarius!

É com tristeza que observamos o clamor do diretor artístico e maestro da OSB e da Revista Veja a uma guerra santa. Guerras santas são sempre sinônimas de intransigência, prepotência e imposição e reafirmam uma imagem negativa e pouco afinada com os tempos atuais. Refletem um pensamento totalitário, autoritário e, por isso, ultrapassado, que é renegado por todos que buscam uma sociedade construída em princípios como a justiça, a liberdade e o respeito humano. Demonstram as bases violentas, preconceituosas e de certo separatismo-artístico que marcam o seu discurso.

Mas como dissemos antes, a história falará mais alto e a verdade há de sobressair a este projeto, inventado por aqueles que, na verdade, não possuem nenhum compromisso com a nossa OSB. Neste momento, a paz santa será a gloriosa vencedora. Como deve ser e como o era nos tempos de outrora.

Antonio J. Augusto é docente da Escola de Música e membro da Orquestra Petrobrás Sinfônica, do Art Metal Quinteto, do Trio da Canção Brasileira, do Ágapa Trio e da Banda Anacleto de Medeiros.

Artigo publicado originalmente em O Leopoldo – Informativo da Escola de Música da UFRJ. Rio de Janeiro 5 de maio de 2011.

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